terça-feira, 25 de março de 2014

"E agora sei que algumas pessoas sentem a infelicidade da mesma forma que outras amam: privadamente, intensamente, irremediavelmente." ( in E as montanhas ecoaram, khaled Hosseini)
"Diz-se que devemos encontrar um propósito para a nossa vida e vivê-lo. Mas, por vezes, só depois de termos vivido é que reconhecemos que a nossa vida tinha um propósito, e provavelmente um que nunca nos tinha passado pela cabeça." ( in E as montanhas ecoaram, khaled Hosseini)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014



                                                                      A Decisão

Vocês são a favor ou contra?
Respondam sim ou não.
Decerto já pensaram no problema
Creio sinceramente que ele os tem preocupado.
Tudo na vida traz preocupações
Crianças mulheres insetos
plantas nocivas, horas sem proveito
paixões difíceis, dentes cariados
filmes medíocres. e isto decerto os preocupa.
sejam responsáveis e digam: sim ou não.
A vocês é que cabe decidir.
Não lhes pedimos evidentemente que abandonem 
suas preocupações, que interrompam a sua vida
o jornal preferido, o bate-papo
no barbeiro. os domingos ao ar livre.
uma palavra só. Vamos então:
Vocês são contra ou a favor?

Pensem bem: Eu fico à espera.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014



Porque é que as mulheres não foram à lua?

Os americanos nunca enviaram mulheres à lua por causa da bagagem: não cabia. Quem já viajou com mulheres sabe do que falo. Elas não viajam, organizam mudanças. Qualquer pequena deslocação, por dois ou três dias, serve de pretexto para tentar colocar "o menor número possível de coisas" (asseguram elas) dentro do maior número possível de malas (digo eu). Às vezes parece que o número das malas supero o número das coisas. Só nessas alturas é que nos apercebemos de tudo aquilo que cabe dentro de uma casa.
As malas são tantas que precisam de ser catalogadas: há a mala das camisas, a mala da roupa suja, a mala dos perfumes, a mala dos mistérios, a mala dos livros para ler nas férias. Há inclusive uma mala unicamente para guardar os catálogos com o conteúdo das outras malas.
Alguns homens, quando se apaixonam, acreditam realmente na velha utopia "um amor e uma cabana". Algumas mulheres também, até ao dia em que começam a fazer as malas. A pergunta, " o que levaria para uma ilha deserta?" não faz sentido para elas: " E há limite de peso?"
Conta-se que Sara Bernard transportava consigo um baú por cada dia que tivesse de passar longe de casa. nos finais do século XIX ainda era possível viajar com fausto. A invenção dos aviões acabou com isso. Se vivesse nos nossos dias, a grande atriz não poderia passar muito tempo longe de casa.
(...)
Dito isto dou o braço a torcer. não há nada melhor do que viajar até ao Pantanal, para uma fazenda remota, e na primeira noite, longe, muito longe dos desacertos do mundo, ela aparecer para jantar vestida e perfumada como uma princesa árabe. 
Acho muito bem que um homem se proponha a atravessar a Austrália com uma única camisa, umas calças duas cuecas, um par de ténis e a escova de dentes. 
Mas quem se deixaria seduzir por uma mulher que cruzou as vastas areias da Austrália sem nunca trocar de camisa?
Também há quem diga que as mulheres nunca foram à lua por causa da poeira. Pode ser. 
(in A Substância do amor e outras crónicas, José Eduardo Agualusa)



Beijar um Sapo

Uma recente pesquisa da revista brasileira Isto É assegura que as três principais qualidades que as mulheres procuram nos homens são o carinho, a sinceridade e a inteligência. A esmagadora maioria afirma não se importar com o facto de um homem ser feio. Já os homens continuam a citar Vinicius de Moraes: “que me desculpem as muito feias, mas beleza é fundamental”; e só relativamente poucos se afirmam preocupados com a inteligência e o património cultural da possível companheira.
Segundo o mesmo artigo, as mulheres queixam-se de ser cada vez mais difícil encontrar homens interessantes, disponíveis para um relacionamento duradouro. Não admira: o que aqueles dados sugerem, em primeiro lugar, é que as mulheres são muito mais inteligentes do que os homens. E, embora não esteja explícito, fica a suspeita de que a maior parte dos homens receia as mulheres inteligentes.
Antigamente, quando as mulheres estavam confinadas à cozinha, ou à vida inútil dos salões, era fácil iludir esta questão. O homem mantinha o logro da sua superioridade intelectual, que justificava o secular domínio masculino, e podia até dar-se ao brilho de escolher como esposa uma mulher inteligente. Hoje não: os homens já têm de competir nos empregos com mulheres intelectualmente mais preparadas do que eles. Ainda que jamais o confessem (não confessariam isso nem sujeitos a tortura), poucos aceitam a possibilidade de transportar tal situação para o interior do lar.
As mulheres, conforme nos ensina a velha fábula, não se importam de beijar um sapo, sabendo que dentro dele se esconde um príncipe. Os homens, na sua maioria, beijariam a princesa e voltariam a beijá-la, mesmo depois de a ouvirem coaxar na piscina, numa noite de lua cheia. “Era um sapo”, admitiriam mais tarde em conversa com os amigos, “mas que pernas!”
Ao contrário, se um homem suspeitar que dentro de um sapo pode haver uma mulher inteligente, pisa o sapo: “um nojo! E ainda por cima queria saber se eu já tinha lido Kafka!...”
Não consigo imaginar o que poderá resultar deste lamentável desencontro histórico. Uma das mulheres entrevistadas no artigo Isto É acha que existem apenas duas opções: “ ou você se mata ou vira lésbica.” Parece-me uma posição extremamente pessimista. Tenho a certeza de que muitas mulheres preferem continuar a beijar sapos, a vida inteira, mesmo sabendo que na maior parte dos casos eles são apenas isso: sapos.
Afinal, um beijo, como cantava o velho Sinatra, é somente um beijo. E polo menos os sapos não costumam telefonar no dia seguinte.
(in Substância do amor e outras crónicas, José Eduardo Agualusa)


quarta-feira, 26 de junho de 2013

A Consciência do Mal




“ A consciência do mal, quer o que cometemos, quer o que sofremos, é como a água de um lago: enquanto a extensão líquida que observamos nos parece, aos nossos olhos, calma e quase imóvel, na realidade, sob a superfície agitam-se correntes que formam remoinhos profundos e perigosos. Nunca iríeis, por vossa vontade, mergulhar num destes remoinhos a menos que quisésseis renunciar à vossa vida… aí está, eu penso que cada um de nós deve olhar apenas para a superfície do lago, procurando gozar da paz que a sua aparente imobilidade nos comunica.

Sabemos muito bem que nele existem abismos que poderiam engolir-nos, mas, para ir em frente, temos  de ignorar a sua presença, embora sem os esquecer. Água sobre água, a vida sobre a morte.”

In “Mercador de lã” – Valéria Montaldi


Uma meta alcançada não é uma meta

Este aforismo, aparentemente contraditório, de Herman Hesse remete-nos para um breve texto do escritor uruguaio Eduardo Galeano, que diz assim: “Ela está no horizonte – diz Fernando Bieri. – Aproximo-me dois passos e o horizonte corre dois passos mais para lá. Caminho dez passos e ela afasta-se dez passos. Por mais que caminhe nunca a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso, para caminhar.”
A utopia, como o seu nome indica, é um não lugar, uma meta que só se pode chegar através da aspiração e da imaginação. Do mesmo modo que não podemos alcançar o horizonte, há destinos que têm como única finalidade fazer-nos caminhar.
A magia do horizonte reside no facto de ser um lugar inalcançável, dado que por mais que o possamos contemplar e tentemos apanhá-lo, nunca poderemos lá chegar. De igual modo, toda a utopia é um motor, uma motivação para continuar o caminho. Mas precisamos desse motor.
Dependendo da meta que tenhamos fixado para nós, é provável que nunca possamos chegar até ela. Por exemplo, um pintor que aspira à perfeição ou um atleta que queira reduzir sempre a sua marca, chocarão antes ou depois com os seus limites, com o seu próprio horizonte, mas é precisamente essa utopia que lhes permite crescer e progredir.
Como dizia William Faulkner, devemos ter sonhos suficientemente grandes para não os perdermos de vista enquanto os perseguimos.
A felicidade reside frequentemente em perseguir o impossível.
O estilo de vida a que nos vemos impelidos faz-nos acreditar que tudo se reduz a conseguir objectivos e objectos quantificáveis. Estamos tão obcecados com chegar, com queimar etapas sem nos apercebermos delas, sem aprender com elas, que não apreciamos o caminho, os seus recantos e os seus altos e baixos. Sucumbimos perante a ilusão de que se subirmos degraus no trabalho, se comprarmos um carro novo ou mudarmos de casa estamos a alcançar uma meta.
Mas não é esta meta a que se refere Herman Hesse.
Porque, será esse o objetivo primordial da nossa vida? Acumular objetos, desfazermo-nos dos velhos? É assim que nos devemos relacionar com o mundo? Não seria melhor aprender com o vivido, valorizar experiências e avançar para um ideal que dê sentido à nossa vida?
Cada instante da nossa existência faz parte dessa mochila que levamos connosco e a que podemos chamar experiência. São situações, emoções, pessoas, descobertas…, tudo isso faz parte do caminho.
Talvez nunca cheguemos até onde sonhámos, mas as oportunidades abrem-se diante de nós e podem levar-nos a novos caminhos, a novos portos de montanha que nos convidem a continuar a subir.
Por isso Siddharta, cujo nome significa “o que alcançou a meta”, quando se encontra com mestres opta por aprender o que eles lhes oferecem. No entanto, uma vez obtido o ensinamento, segue o seu caminho, porque sabe que a vida da sabedoria é uma estrada sem fim, que leva a todo o lado e a nenhum em concreto.
Por isso mesmo, como seres humanos, devemos dar-nos autorização para sonhar. Não te sintas deprimido se o que esperas alcançar parece distante. Toda a grande meta dá um sentido à nossa vida e permite-nos apreciar o caminho, que, muitas, é mais aprazível que o objectivo em si.

Capitulo 19 “A Cura espiritual de Siddharta – a sabedoria de Herman Hesse.